O Brasil tem o que o mundo precisa. Quem está negociando essa riqueza?
Embaixo do chão brasileiro está a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Os Estados Unidos precisam dela para depender menos da China. Esta investigação mostra quem está negociando esse acesso, e em nome de quem.
Carajás (PA), 2016. Foto: IsabeleC, CC BY-SA 4.0
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Seis minerais, um mesmo mapa
Nióbio, terras raras, grafite, lítio, níquel e cobre estão nos motores elétricos, nas baterias, nas turbinas e nas armas. O Brasil tem todos eles. Em dois, é potência mundial.
Os pontos marcam municípios com projetos ligados a cada mineral. Ponto cheio indica associação confirmada por fonte anexada; ponto vazado e linha tracejada indicam associação ainda em apuração. Os espécimes das fotos são exemplos do mineral, não amostras brasileiras.
fonte anexada em apuração
Escolha um mineral para ver onde ele está.
Os números vêm do Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos EUA. Toque em um mineral para ver uso, locais e fonte.
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Ter não é o mesmo que produzir
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta e produziu cerca de 0,5% do total mundial em 2025. A China tem metade das reservas e quase 70% da produção. É essa distância que todo mundo quer explorar.
Participação no total mundial de terras raras
Fonte das reservas:
Reservas
China 52% 44 MtBrasil 25% 21 Mt
Produção 2025
China 69% 270 mil tBrasil 0,5% 2 mil t
ChinaBrasilOutros países
USGS informa “mais de 85 milhões de t” no mundo; percentuais aproximados.
Reserva é o que se estima ser economicamente extraível. Produção é o que de fato sai da mina. Processamento é a separação química que transforma o minério em óxidos e metais. Em cada etapa a distância entre Brasil e China aumenta. As duas fontes oficiais ainda divergem sobre o tamanho da reserva brasileira.
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As duas fronteiras já têm comprador americano
No norte de Goiás, a única mina comercial de terras raras do país passou para as mãos de uma empresa americana em setembro. No sul da Bahia, outra empresa dos EUA é dona de um projeto de areias minerais desde 2023.
Energy Fuels conclui a compra do projeto de areias minerais no sul da Bahia.
USA Rare Earth anuncia a compra da Serra Verde, em Minaçu (GO).
A compra é concluída, por cerca de US$ 2,8 bilhões.
Lula sanciona a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Os municípios destacados vêm da malha do IBGE. As datas abaixo foram confirmadas em documentos e reportagens; valores e detalhes ainda pendentes estão sinalizados no painel de evidências.
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Quem está negociando essa riqueza?
Daqui em diante seguimos o fio: do que existe dentro do seu celular à disputa entre EUA e China, da tarifa de 50% às pessoas que se ofereceram como ponte em Washington, dos fundos que já estão no território às escolhas que o Brasil ainda pode fazer.
Cada capítulo separa o que é fato comprovado, o que é declaração pública, o que é alegação ainda sem prova e o que é interpretação nossa. Quem é citado tem a resposta registrada. Quando algo muda, a página registra a atualização.
A disputa pelo subsolo brasileiro começa num objeto que cabe no bolso.
Li-ion
Ímãs de neodímio, uma das terras raras. Foto: Wikimedia Commons, CC BY 3.0Um celular real desmontado. Foto: DungeonLords, CC BY-SA 4.0
93%
do nióbio produzido no mundo em 2025 saiu do Brasil. 104 mil de 112 mil toneladas.
Brasil Resto do mundo Cada quadrado = 1 kg em cada 100 kg. Fonte: USGS, 2026.
Torres e turbinas: aço de alta resistência. Foto: Força Aérea dos EUA, domínio público
Aço mais forte e mais leve com poucos gramas de nióbio por tonelada
Gasodutos, pontes, torres de transmissão e carros
Turbinas de avião e ligas para altas temperaturas
Pegue o celular que está na sua mão
Ele parece um objeto de vidro e metal. Por dentro, é um pequeno mapa da mineração mundial: dezenas de elementos químicos vindos de minas espalhadas pelo planeta.
Cinco camadas, dezenas de elementos
Tela, placa de circuito, bateria, componentes e carcaça. Cada camada depende de minerais diferentes, e alguns deles estão embaixo do chão brasileiro.
O ímã que faz o celular vibrar
O alto-falante, o microfone e o motor de vibração usam ímãs minúsculos de terras raras, como neodímio e praseodímio. São os mesmos ímãs que movem o carro elétrico, a turbina eólica e o míssil guiado, em tamanho muito maior.
A bateria: lítio, grafite e níquel
O lítio carrega a energia. O grafite forma o ânodo, o polo negativo. O níquel entra no catodo de várias químicas de bateria. O Brasil tem a 2ª maior reserva de grafite e a 3ª de níquel entre os países listados pelo USGS.
A química da bateria varia. As de celular usam, em geral, catodos com cobalto; as de carros elétricos usam muitas vezes níquel, manganês e cobalto, ou ferro e fosfato. O grafite está em praticamente todas.
Os circuitos: cobre
Trilhas de cobre levam corrente e calor por toda a placa. Silício, prata e tungstênio completam os chips e as conexões.
E o nióbio?
Quase não está no celular. Está no aço de alta resistência das torres de transmissão, dos gasodutos e das turbinas que mantêm o celular ligado. De cada 100 kg de nióbio produzidos no mundo em 2025, 93 saíram do Brasil.
Capítulo 3
Por que o Brasil virou alvo
Reserva, produção e refino contam três histórias diferentes. Em todas, o Brasil é a alternativa que falta aos EUA.
Passe o mouse ou toque em um país
menosmais
Cor e círculos proporcionais a reservas, em toneladas de óxidos. Fonte: USGS, 2026.
Mineração60%
Refino e separação91%
Ímãs permanentes94%
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Quem tem
As reservas de terras raras estão concentradas em dois países. A China tem 44 milhões de toneladas; o Brasil, 21 milhões. Os dez seguintes, somados, têm menos que o Brasil.
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Quem tira do chão
Na produção, o quadro é outro. Em 2025 a China extraiu 270 mil toneladas; os EUA, 51 mil; o Brasil, cerca de 2 mil. A segunda maior reserva do mundo ainda é quase só reserva.
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Quem transforma
O gargalo real está depois da mina. A China refina 91% das terras raras magnéticas do mundo e fabrica 94% dos ímãs. Quem controla essa etapa controla a cadeia inteira.
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Quem depende
Em 2025 a China restringiu a exportação de sete terras raras usadas em ímãs e armas. Os EUA compram dela 71% dos compostos e metais de terras raras que importam. Washington precisa de outra fonte, e só um país tem reserva para isso.
Reservas de terras raras por país
Brasil segundo:
China44
Brasil21
Austrália6,3
Rússia3,8
Vietnã3,5
EUA1,9
Groenlândia1,5
Tanzânia0,89
África do Sul0,86
Canadá0,83
Malásia0,71
Milhões de toneladas de óxidos de terras raras. Índia, Mianmar e Tailândia não têm reserva publicada pelo USGS em 2026. Mundo: mais de 85 milhões de t (USGS).
Três palavras que não se confundem
Reserva
O que se estima ser possível extrair com lucro, hoje, a partir de estudos geológicos.
Produção
O que sai de fato da mina num ano.
Processamento
A separação química que transforma o minério em óxidos e metais, e depois em ímãs.
A IEA estima que, mesmo com todos os projetos anunciados fora da China, em 2035 essa capacidade cobriria cerca de metade da demanda de mineração, 25% da de refino e menos de 20% da de ímãs. A China é a principal refinadora de 19 dos 20 minerais estratégicos de energia analisados pela agência.
Fato comprovado
A China é a principal refinadora de 19 dos 20 minerais estratégicos de energia analisados pela IEA, com participação média de cerca de 70%.
Capítulo 4
Pressão, aliado, acordo
Em quatro países, em menos de dois anos, a sequência foi parecida. No Brasil, as duas primeiras etapas já aconteceram.
O padrão
Casa Branca, domínio público
Ucrânia
Pressão
Discussão no Salão Oval com Zelensky, cujo país depende de armas americanas.
Acordo
Metade da receita de novas licenças de minerais, petróleo e gás vai para um fundo com os EUA.
Casa Branca, domínio público
Argentina
Pressão
“Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina”, diz Trump antes da eleição. Swap de US$ 20 bi.
Acordo
Acordo-quadro de suprimento de minerais críticos assinado em Washington.
Governo da Venezuela, domínio público
Venezuela
Pressão
Forças americanas capturam Nicolás Maduro em Caracas. Delcy Rodríguez assume.
Acordo
17 campos de petróleo, concessão de 100 anos, 35% e veto para os EUA, 20% da produção a preço de custo.
Departamento de Estado dos EUA, domínio público
Colômbia
Aliado
Abelardo de la Espriella, aliado declarado de Trump, toma posse.
Acordo
Em Barranquilla, Rubio assina acordos de minerais críticos e energia nuclear.
Interpretação
Primeiro vem a pressão. Depois, um governo que deve algo a Washington. Por fim, o acordo que abre recursos naturais aos EUA.
É uma interpretação. Cada caso tem causas próprias, e acordos de minerais também são assinados por países sem pressão nenhuma.
A Argentina assinou seu acordo junto com outros dez países, numa reunião com 54 delegações. A Ucrânia negociava o acordo antes da discussão no Salão Oval. O padrão descreve uma sequência observada, não prova intenção.
E o Brasil?
Salão Oval, maio de 2026. Trump recebe Flávio Bolsonaro. Segundo a descrição da imagem publicada por Trump, também estão na sala Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.Foto publicada no Truth Social de Donald Trump; domínio público (Wikimedia Commons).
Pressão dos EUAAliados no BrasilInstituições brasileiras
Aliados no Brasil
Eduardo Bolsonaro, ainda deputado, muda-se para os EUA e passa a defender sanções contra autoridades brasileiras.
Fato
Pressão dos EUA
Trump declara emergência nacional por causa do Brasil e eleva a tarifa a 50%. O texto oficial cita Jair Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
Fato
Pressão dos EUA
Os EUA entregam 21 exigências. Entre elas, aviso prévio sobre venda de ativos de minerais críticos e limites ao investimento chinês na mineração.
Fato
Instituições brasileiras
A Câmara declara a perda do mandato de Eduardo por faltas.
Fato
Aliados no Brasil
Na CPAC, no Texas, Flávio Bolsonaro apresenta o Brasil como “a solução da América” para depender menos da China em minerais críticos.
Declaração
Aliados no Brasil
Flávio é recebido no Salão Oval, com Eduardo e Paulo Figueiredo. No mesmo mês é aberta a Rockbridge Brazil LLC, administrada por um assessor de JD Vance.
Fato
Instituições brasileiras
O STF condena Eduardo por coação no curso do processo: usou as sanções americanas para pressionar ministros.
Fato
Pressão dos EUA
A USA Rare Earth, com dinheiro do governo americano na cadeia, assume a única mina comercial de terras raras do Brasil.
Fato
Instituições brasileiras
Lula sanciona a Política Nacional de Minerais Críticos: um conselho ligado à Presidência pode aprovar operações societárias no setor.
Fato
Instituições brasileiras
A lista de exigências vem a público. Lula: “inaceitável”.
Fato
Aliados no Brasil
Renan Santos acusa a Rockbridge de financiar a campanha de Flávio. A campanha nega; não há prova de transferência.
Alegação
Instituições brasileiras
Flávio Bolsonaro (47,05%) e Lula (45,13%) vão ao segundo turno, em 25 de outubro.
Fato
O que dizem os citados
Flávio Bolsonaro apresenta a eleição como escolha entre um Brasil aliado dos EUA no hemisfério e um Brasil alinhado aos adversários americanos. Sua campanha nega ter recebido recursos estrangeiros.
Pedro Sang reconhece vínculo com a Rockbridge e nega intermediar recursos.
André Marinho admite ter escrito o memorando sobre minerais e ter se encontrado com JD Vance. Diz que falaram de crime organizado e que não apresentou o texto a nenhuma autoridade americana.
A Rockbridge diz não ter unidade oficial no Brasil e afirma ter sido vítima de documentos falsos.
Paulo Figueiredo diz ser cidadão privado, que os imóveis são financiados e que foi autuado indevidamente.
O governo Lula recusou a lista de exigências e diz aceitar empresas estrangeiras desde que o processamento seja feito no Brasil.
Declaração
Em entrevista ao programa Revelando, de Bruno Torturra, publicada em 16 de outubro de 2026, o general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro, chamou de “submissão voluntária” a postura de políticos brasileiros diante dos EUA e de “posição de subalterno” a foto de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump no Salão Oval. “A busca de interferência é traição”, disse.
Capítulo 5
Quem é quem
Nove nomes aparecem nesta história. Para cada um, o cargo na data de hoje, o papel documentado e o status de cada afirmação.
Donald Trump
Presidente dos EUA desde janeiro de 2025
Assinou a ordem que elevou a tarifa sobre o Brasil a 50%. Recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval.
Foto: Daniel Torok / Casa Branca, domínio público
JD Vance
Vice-presidente dos EUA
Cofundador da Rockbridge Network. Um assessor seu administra a Rockbridge Brazil LLC.
Foto: Emily J. Higgins / Casa Branca, domínio público
Donald Trump Jr.
Empresário; sócio da 1789 Capital
Sócio do fundo que investiu na Vulcan Elements, parceira da dona do projeto no sul da Bahia.
Foto: Gage Skidmore, CC BY-SA 2.0
Eduardo Bolsonaro
Ex-deputado federal; mandato declarado perdido em dez. 2025
Mudou-se para os EUA e defendeu sanções contra autoridades brasileiras. Condenado pela 1ª Turma do STF por coação.
Foto: Michel Jesus / Câmara dos Deputados, CC BY 3.0
Paulo Figueiredo
Comentarista político; vive nos EUA
Citado na ordem executiva de Trump. Esteve no Salão Oval com Flávio e Eduardo. Deve R$ 4,9 milhões à União, o que contesta.
Foto: recorte de foto publicada por Donald Trump, domínio público
Flávio Bolsonaro
Senador (PL-RJ); candidato a presidente no 2º turno
Apresentou o Brasil na CPAC como “a solução da América” em minerais críticos. Disputa o 2º turno em 25 de outubro.
Foto: Agência Senado
André Marinho
Comunicador; ex-candidato do Novo ao governo do Rio (0,52%)
Autor do memorando “Prosperity Partnership” sobre minerais críticos e terras raras.
Foto: TSE, CC BY 4.0
Pedro Sang
Empresário
Trabalha no comitê de campanha de Flávio em São Paulo e se apresenta como “Pedro da Rockbridge”.
Foto: reprodução; autoria e licença a confirmar
Carlos Alberto Santos Cruz
General da reserva; ex-ministro da Secretaria de Governo (2019)
Militar de direita que critica a aproximação de políticos brasileiros com Trump.
Foto: Isac Nóbrega / PR, CC BY 2.0
Cargos verificados em 17 de outubro de 2026. Aparecer nesta lista não significa ter cometido irregularidade. Cada afirmação traz o seu status e a resposta de quem é citado, quando existe.
Capítulo 6
Siga o dinheiro
Toda vez que se puxa um fio desta rede, ele termina no minério. Aqui estão só os fios que têm documento.
Puxe um fio:
Participação ou controle
Investimento ou crédito
Contrato ou memorando
Relato ou declaração
Alegação sem prova
Dinheiro em movimento
Só aparecem vínculos com fonte publicada. Uma linha não indica irregularidade.
Do filho de Trump à Bahia
Donald Trump Jr. é sócio da 1789 Capital. Em agosto de 2025 o fundo investiu na Vulcan Elements, fabricante de ímãs que três meses depois recebeu US$ 620 milhões do Pentágono. No mesmo mês, a Vulcan assinou um memorando com a Energy Fuels, que desde 2023 é dona de 17 concessões de areias com monazita no sul da Bahia.
Interpretação São elos públicos e indiretos. O memorando não trata do projeto brasileiro, e não há registro de dinheiro de Trump Jr. aplicado na Bahia.
Do vice de Trump à campanha
JD Vance fundou a Rockbridge Network em 2019. Em maio de 2026 surgiu uma Rockbridge Brazil LLC administrada por um assessor dele. Pedro Sang, que se apresenta como “Pedro da Rockbridge”, trabalha no comitê de Flávio Bolsonaro em São Paulo.
Alegação A acusação de que a Rockbridge financiou a campanha não tem prova até agora. A Rockbridge nega ter unidade no Brasil; Sang nega intermediar recursos.
O dinheiro público americano
O governo dos EUA não está só na política. O Pentágono emprestou US$ 620 milhões à Vulcan. A DFC, banco público, financiou a Serra Verde com US$ 565 milhões, e um veículo com US$ 750 milhões do Departamento de Guerra comprou por 15 anos a produção da fase 1 da mina de Goiás.
Serra Verde (Minaçu, GO): financiamento de US$ 565 milhões da DFC, banco público americano (fev/2026); compra da produção da fase 1 por 15 anos por um veículo com US$ 750 milhões do Departamento de Guerra; desde 4/9/2026, controlada pela USA Rare Earth.
Capítulo 7
Onde o subsolo já tem dono
A disputa tem endereço: três municípios do litoral baiano e uma cidade no norte de Goiás.
Limites municipais: IBGE. A área exata das concessões ainda não está desenhada: depende da consulta aos processos no SIGMINE, da ANM.
Sul da Bahia: areia que vale mais que a praia
Entre Prado, Alcobaça e Caravelas, as areias do litoral concentram minerais pesados: monazita, que contém terras raras e urânio, além de ilmenita, rutilo e zircão. Em 2023 a americana Energy Fuels comprou 17 concessões na região.
Dono
Energy Fuels (EUA), desde 10/2/2023
Ativo
17 concessões de areias com minerais pesados
Preço anunciado
US$ 27,5 milhões
Situação
Aguarda licenças; a monazita deve abastecer a usina da empresa em Utah
Fato comprovado
10 de fevereiro de 2023: a Energy Fuels conclui a compra do Bahia Project, 17 concessões de areias com minerais pesados (monazita, ilmenita, rutilo e zircão) no sul da Bahia, anunciada por US$ 27,5 milhões.
A transcrição que deu origem a esta investigação fala em 19 processos ativos na ANM em Prado, Caravelas e Alcobaça. O número ainda não foi conferido. Também falta mapear unidades de conservação, comunidades tradicionais e áreas de pesca sobrepostas às concessões. O 10-K da empresa cita o risco de criação de novas unidades de conservação.
Praia do Farol, Prado. Foto: Márcio Filho/MTur, domínio públicoBarra de Caravelas. Foto: Vilamir Azevedo, CC BY-SA 3.0Alcobaça. Foto: Andrevruas, CC BY 3.0
Capítulo 8
O que o Brasil faz com isso
O minério não sai do lugar. O que se decide é onde ele vira valor, e quem decide.
1MinaMinério brutono Brasil
2BeneficiamentoConcentradono Brasil
3Separação químicaÓxidos de cada elementono Brasil
Separar os elementos e produzir óxidos e metais aqui. É a etapa em que a China tem 91% do mundo, e a que a nova lei tenta trazer para o país.
O que fica no Brasil
Empregos qualificados em química e metalurgia
Mais valor por tonelada exportada
Poder de barganha: o que é escasso no mundo é refino, não minério
O que custa
Plantas caras e de longa maturação
Energia, água e reagentes em grande escala
Rejeitos com tório e urânio, no caso da monazita
Cenários qualitativos. Valores de emprego e receita dependem de estudos que ainda não estão publicados para os projetos brasileiros; não estimamos números aqui.
Óxidos de terras raras, o produto da separação química. Foto: Peggy Greb/USDA, domínio público
A aposta da lei de setembro
Fato comprovado
A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (16/9/2026) cria um conselho ligado à Presidência, o Cimce, que pode aprovar operações societárias em projetos do setor e deve elaborar um plano nacional para beneficiamento, refino e industrialização no país.
Declaração
Lula diz não se opor a empresas estrangeiras explorando minerais no Brasil, desde que o processamento e a produção do produto final também aconteçam no país.
Setores privados e economistas liberais criticam o poder do novo conselho para aprovar operações societárias, que veem como insegurança para investidores. O governo responde que o objetivo é tirar o Brasil da posição de mero exportador de commodities.
Soberania e sustentabilidade
Ambiental
Biomas, água, rejeitos, recuperação de áreas. Na Serra Verde, a Semad-GO já multou a empresa por desmatamento.
Social
Quem mora em Prado, Caravelas, Alcobaça e Minaçu: pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores. Consulta prévia é obrigação, não favor.
Econômica
Quanto do valor fica no país, quanto vai em royalties, quanto vira indústria. A IEA estima em US$ 60 bilhões o investimento necessário na próxima década para diversificar a cadeia fora da China.
Soberania
Quem decide sobre a venda de uma mina estratégica. A nova política cria um conselho ligado à Presidência que pode aprovar operações societárias no setor.
Puxando o fio
Faça a conta.
21 milhões
de toneladas
de terras raras embaixo do chão brasileiro. A segunda maior reserva do planeta.
2 mil
toneladas
foi o que o Brasil tirou do chão em 2025. A China tirou 270 mil.
91%
do refino
das terras raras dos ímãs acontece na China. É ali que o minério vira dinheiro.
1
mina
comercial de terras raras no Brasil. Desde 4 de setembro, tem dono americano. A produção já tem comprador por 15 anos, com dinheiro do Departamento de Guerra dos EUA.
17
concessões
no litoral do sul da Bahia. Dona: uma empresa americana, desde 2023.
50%
de tarifa
sobre o Brasil. No texto oficial que a justifica, o nome de um brasileiro que mora na Flórida.
21
exigências
entregues por Washington. Uma delas: avisar os EUA antes de vender qualquer ativo de minerais críticos.
O minério não sai do lugar.
Quem sai é o valor.
E, com ele, a decisão.
Há dois projetos em disputa para essa riqueza. Nas palavras de cada lado:
“O Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos.”
Empresas estrangeiras podem explorar, desde que o processamento e o produto final sejam feitos no Brasil.
Os números desta página são fatos com fonte. As frases de efeito e o fechamento são a leitura desta investigação.